SEM FREIOS: UMA CARAVANA DE BICICLETA E A ENERGIA IMPARÁVEL DO ENCONTRO DE CICLOVIDA

WITHOUT BRAKES: A BICYCLE CARAVAN AND THE UNSTOPPABLE ENERGY OF THE CICLOVIDA ENCONTRO

Meu café da manhã geralmente não consiste em uma explicação sobre o poder de salvar sementes como uma forma de resistência contra o desenvolvimento da agricultura para o lucro em vez do povo, ou a necessidade para lutar contra a atrocidade da barragem hidroelétrica Belo Monte, que está forçando mais de 20 mil indígenas na Amazônia a sair de suas casas e comunidades. Meu café da manhã tipicamente não é seguido por uma caravana de bici-pé de dois dias percorrendo comunidades do sertão no nordeste do Brasil, que inclui duas pessoas que andavam de bicicleta mais de 8 mil kilômetros para ajudar a expôr os efeitos devastadores dos agronegócios no documentário. Mas neste dia foi. // My breakfast doesn’t typically consist of an explanation behind the power of seed saving as a means of resistance against agricultural development for profit rather than people, or the need to fight against the atrocity of the Belo Monte hydro-electric dam that’s displacing more than 20 thousand indigenous people in the Amazon. My breakfast isn’t then usually followed by a two-day bici-pé caravan to communities in the sertão of Northeastern Brazil that includes two people who rode more than five thousand miles to help expose the devastating effects of modern agriculture in a documentary. But on this day it was.

Sunset in Barra do Leme

[Bici-pé: Um termo usado por Inácio para definir o ato de andar alternadamente a pé e com uma bicicleta, como meio de transporte] //
[Bici-pé: A term used by Inácio to define the act of interchangeably riding and walking a bicycle for transportation]

Nossa caravana de bici-pé pedalava-caminhava saindo do assentamento Barra do Leme, por uma descida conduzindo até um açude brilhante com água usada para beber a nossa esquerda, com uma verde agrofloresta florescendo a nossa direita. Um caminho vermelho alaranjado entre as duas paisagens, com areia estalando ao nossos pneus-pés, debaixo de um sol forte palpitando constantemente. Eu me sentia absolutamente eufórica. Meu nível de energia quando começamos a caravana só era comparável ao movimento que fazia para a frente na bicicleta verde escura, amava profundamente, e sem freios; o que quase me atirou ao chão pelas ladeiras do sertão, e me guiando com um brilho imparável. // As our bici-pé caravan pedal-walked away from the land settlement Barra do Leme, a slope leading to a glistening lake for drinking water on our left, flourishing verde permaculture to our right, separated by a red-orange crunchy path of sand perpetually pounded by the scorching sun, I was absolutely giddy. My energy level was only comparable to the forward motion of a dark green, thoroughly-loved bicycle sem freios that was about to throw me down the hills of the sertão, and guide me with an unstoppable brilliance.

Viktor Pereira helps prepare the bikes for the carravan

[Sem Freios: Literalmente, uma bicicleta sem freios; movimento para a frente, sem a capacidade de parar] //
[Sem Freios: Literally, without brakes; forward motion without the ability to stop.]



Depois de 10 dias revigorantes no encontro de Ciclovida, alguns de nós dos Estados Unidos que estavam há mais tempo no Brasil, voltamos para nossas barracas no assentamento, depois de passar algum tempo em Fortaleza. A caravana de bici-pé era uma continuação e conclusão das duas semanas passadas, onde eu tive o privilégio de aprender, andar de bicicleta, cozinhar, conversar, construir, conhecer pessoas, e dançar com um grupo incrível de aproximadamente 60 ativistas – incluindo Inácio e Ivania do Ciclovida: Lifecycle, aqueles/as que são de verdade algumas das pessoas mais inspiradas e dedicadas que eu encontrei – das várias regiões do Brasil, e dos Estados Unidos no encontro de Ciclovida. // After an invigorating ten days on the Ciclovida encontro, a few of us from the United States who were staying in Brazil longer, returned to our tents at the settlement, after some time back in the city of Fortaleza. The bici-pe caravan was an incredible continuation and conclusion of those two weeks, where I had the privilege of learning, biking, cooking, conversing, building, connecting, and dancing with an incredible group of about 60 activists – including Inácio and Ivania from Ciclovida: Lifecycle, who are truly some of the most inspirational, dedicated people I have ever met – from various regions throughout Brazil, and the United States for a Ciclovida encontro.

One of several natural-building projects in its beggining stages: a health and healing house

A primeira parte do encontro consistia em visitas de solidariedade a comunidade indígena de Jenipapo-Kanindé, a comunidade rural do Chapada do Apodi, um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e a Comunidade do Trilho em Fortaleza. Durante estas visitas nós aprendemos sobre as várias lutas que estas comunidades estão travando concernente direitos da terra, poluição da água de empresários grandes como Ypióca, e uso intensivo de pesticidas dos agronegócios. Também a deslocamento criado por projetos do Copo do Mundo acontecendo na cidade. // The first portion of the encontro involved solidarity visits to several communities, such as the indigenous community of Jenipapo-Kanide, the rural community of Chapada do Apodi, a Movement of Landless Rural Workers settlement, and the train-track community in Fortaleza, Comunidade do Trilho. During these visits we learned about the various struggles concerning land rights, pollution from large companies like Ypioca, which primarily produces the sugar cane rum Cachaça, agro-businesses’ intensive use of pesticides and water pollution, as well as displacement caused by numerous World Cup projects happening in the city.

Looking out from a dune at the indigenous community of Jenipopa-Kanide. Above, a water source for the community that has been largely polluted by Ypióca.

A segunda parte do encontro convergiu na Barra do Leme, no assentamento do Ciclovida, uma ocupação de terra, onde se mantém um banco de sementes com fim de preservar-lás e um lugar de resistência coletiva contra o monopólio e controle que grandes empresas do agronegócio (como Monsanto e Cargill) sobre as sementes, e assim das vidas dos humanos. Na Barra do Leme, nós experimentamos uma vivência coletiva, aprendendo com os companheiros por meio de oficinas e conversas, fazendo bio-construção – tal como uma casa de médicos construída de argila e cana de açúcar, também uma cisterna grande, um gerador de “bike-power” (energia de bicicleta), com a ajuda de pessoas muito legais. Também houve um intenso intercambio entre idiomas, discutimos movimentos sociais, colaboramos com esforços de mídia, e, ultimamente, como o movimento de Ciclovida pode continuar (para mais detalhes, lê o blog post na escrita ótima de Ashley Trull: https://ciclovidatour.wordpress.com/2012/02/06/resistencia-convivencia-creatividade-e-solidariedade-at-the-ciclovida-encontro-in-brazil/). //
The second portion of the encontro converged at Barra do Leme, at the Ciclovida settlement, or land occupation, which acts as a seed saving bank and a place of collective resistance against the monopoly and control that large agro-businesses (like Monsanto and Cargill) exert over seeds, and thus the lives of human beings. At Barra do Leme, we lived collectively, learned from each other through workshops and conversation, did some awesome natural building – such as a medical house built from clay and sugar cane, as well as a large cistern, and bike-powered generator with the help of natural building folks. We shared languages, discussed social movements, collaborated media efforts, and, ultimately, how the Ciclovida movement can move forward (for more details, read Ashley Trull’s beautifully-written blog post: https://ciclovidatour.wordpress.com/2012/02/06/resistencia-convivencia-creatividade-e-solidariedade-at-the-ciclovida-encontro-in-brazil/).

Quando uma amiga e colega de trabalho me deu um email sobre o encontro de Ciclovida, eu sabia, imediatamente, que queria participar, já que estava planejando uma volta ao Brasil. Tenho um interesse forte em agricultura sustentável e direitos da terra, especialmente depois da programa que eu fiz com o School for International Tranining, dois anos atrás no região. Antes de me encontrar com as pessoas, eu não poderia ter idéia, e nem teria como verdadeiramente saber da rede incrível de pessoas que eu encontraria e passaria a fazer parte. //
When a friend and co-worker of mine passed along an email about the Ciclovida encontro, I immediately knew I wanted to participate as I was already planning a trip to Brazil, and have a strong interest in sustainable agriculture and land rights, particularly after the School for International Training program I did two years ago in the region. Before meeting up with folks, however, I did not, and could not, truly understand the incredible network of people I was about to meet and become a part.

Ivania explains natural remedies involving clay

Eu sinto que entrei em algo muito maior que eu mesma, uma família, uma rede internacional, lutando pelos mesmos valores que defendo: vida humana, meio ambiente e a libertação desse sistema destrutivo. Até pouco tempo eu me sentia pessimista, antes de vir para o encontro, quando eu estava nos Estados Unidos. Mas esse pessimismo que eu sentia foi superado, e eu me senti revigorada pela paixão, altruísmo e dedicação das pessoas que participavam do encontro. Eu aprendi muito sobre viver coletivamente, sobre permacultura, a possibilidade real de criar espaços por fora do capitalismo, movimentos sociais, remédios naturais, e enfim, o mais importante, nas palavras de Ivania: “uma relação nova com a terra.” //
I feel like I’ve entered something so much larger than myself, an international family, a network fighting for what I value: human life, the environment, and liberation from a destructive system. My recent cynicism in the United States was quickly forgotten, and I was reinvigorated by the passion, selflessness, and dedication of those participating in the encontro. I learned an extensive amount about collective living, permaculture, the real possibility to create spaces outside of capitalism, social movements, natural remedies, and ultimately, and most importantly, in Ivania’s words: “uma nova relação com a terra.”

[“Uma nova relação com a terra”: uma relação explicou por Ivania como a recuparação da relação que foi perdido quando capitalismo interviu no campo; um relação em que agricultores tem autonomia e controle das sementes (e não estão usando sementes modificados), comunidades compartilha sementes naturaís, e um entendimento das sementes é parte da cultura]

[“Uma nova relação com a terra”: a new relationship with the land; a relationship explained by Ivania as essentially a recovery of the one that was lost when capitalism intervened in the countryside; one in which farmer have autonomy and control over their seeds (and aren´t using genetically modified seeds), communties share natural seeds, and understanding seeds is part of the culture] 


Screening and discussion of Ciclovida: Lifecycle in the rural community of Erva Moura

As imagens do documentário do Ciclovida passavam na tela da televisão em amarelo e cinza nos contornos da América do Sul durante a caravana nas vizinhas comunidades rurais. Duas imagens de Inácio e Ivania sentados ao lado um do outro – uma delas na televisão, e a outra imagem com eles em pessoa – na escola da comunidade Macacos e na casa da presidente do assentamento Erva Moura. . // Images of the Ciclovida documentary flashed on the television screen in yellow and gray outlines of South America during our caravan to the neighboring rural communities. Dual images of Inacio and Ivanha sat beside each other — one on the television screen, and the other in person — in the school of the Macacos community, and in the settlement´s president´s house in Erva Moura. 

Depois de bater nas portas das casas, convidando as pessoas para assistir a projeção do filme e discussão, nas duas noites, muitas pessoas deram seu tempo para sentar com a gente e discutir o papel da agricultura na comunidade, assim como o uso de agrotóxicos, a monocultura e a modificação genética das sementes. Nossa caravana não precisava viajar muito longe – aproximadamente 30 kilometros de viagem total – para ter conversas poderosas e interessantes com as pessoas. Durante toda esta viagem as pessoas abriram suas portas para nós, de uma maneira tal que lhes tenho muita gratidão por isso.//
After knocking on doors and inviting people to come to a screening and discussion, on both nights, numerous people took the time to sit with us, and discuss the role of agriculture in the community, as well as the use of agro-toxins, monoculture, and genetic modification of seeds. Our caravan didn’t need to travel far – about 30 kilometers round trip — to have powerful, interesting conversations with folks. People opened their doors to us in a way that I have been consistently grateful for throughout this trip.

Second film screening and discussion in the rural community of Macacos

 

Os sete de nós sem duvida levaram a energia coletiva e o entusiasmo do encontro com a gente, como as rodas de nossas bicicletas giravam em uníssono, nossas correntes quebraram e vizinhos amáveis repararam, nossos corpos suavam até mergulharmos nas lagoas por onde passávamos, e nosso português fluiu e teceu conversas tanto quando poderíamos esticá-las. Eu fui atirada pelas ladeiras do sertão, sem freios, sendo guiada com uma energia “imparável”, na crença e na realidade de que alternativas realmente são possíveis – todos pela preservação do “Ciclovida.”

//
The seven of us undoubtedly carried the collective energy and enthusiasm of the encontro with us, as our bicycles wheels spun in unison, our chains broke and were repaired by kind neighbors, our bodies sweat until we dove into passing lakes, and our Portuguese flowed and wove into conversation as far as we could stretch it. I was thrown down the hills of the sertão sem freios, and guided along with an unstoppable energy, a belief and an actuality that alternatives really our possible – all with the preservation of the “lifecycle.” 

Our caravan -- pronto para começar

–Taylor Miles; Portuguese translation a collaborative effort with the generous help of Viktor Pereira and Nildo Mattos

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